
Meia-noite. Doze badaladas. Um rapaz magro de lábios corados, sobre uma cama branca num quarto escuro. Um filme sem volume na televisão. Só de calça, um cabelo rubro sem corte e uma barba de três dias, ele permanece deitado, ouvindo apenas a chuva e seus pensamentos. Luta consigo mesmo e os pensamentos o sufocam. Precisa de um cigarro, acabaram os cigarros. Lembra-se do encontro, mas no fundo, quer fugir do que sabe que vai acontecer.
Veste uma camisa e calça suas botas velhas, as únicas que tinha. Coloca um sobretudo, já com cheiro de mofo, devido ao tempo em que passara encerrado no guarda-roupas. Antes de sair, procura a pasta preta, cheia, gasta pelo uso, que prometera entregar no encontro marcado. Pega o guarda-chuva, desliga a televisão e tranca a porta.
Desce os quatro andares no escuro e com frio. Chega à portaria mal cuidada e depara-se com o ronco gordo do porteiro. Sai do prédio e encontra uma noite fria de julho, com apenas alguns pontos de luz trazidos pelos postes. Estão todos em casa, aquecidos nas cobertas. Ele espera que alguém também esteja com frio há três quadras dali.
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- 24 de julho de 1975. Aquela foi uma noite que não saiu da minha memória. Amei aquela mulher com todo meu âmago, como nunca, jamais, amei alguém. Bastou ver seus olhos e a sua boca coberta de vermelho, que a gélida noite transformou-se num dia de Sol.
Aquele modesto velhinho estava sentado no banco de praça, contando sua história a quem estivesse disposto a ouvir. Sempre foi desta forma: monólogo querendo ser diálogo. Nunca tivera um verdadeiro interlocutor, até que um rapaz sentou-se ao seu lado, a contemplar aquela barba branca, o colete xadrez e os grossos óculos que falavam de uma remota noite.
- Lembro-me de nos olharmos por dois longos minutos, enquanto a chuva, misturada às lágrimas, borrava aquela maquiagem que escorria pela sua pele aveludada. Entreguei-lhe o resto das roupas que ela havia esquecido em minha casa. Dei-lhe um beijo no rosto e pedi que acompanhasse meus passos. Ela não podia, precisava voltar pra casa antes que o marido percebesse sua ausência. Antes de eu virar a esquina em direção ao bar para comprar cigarros, ela agarrou meu braço, abafando o som da chuva com o soluço das lágrimas. Abraçou-me ternamente, manchou minha boca de vermelho e saiu correndo, sem olhar para trás. Observei seu regresso ao lar, que ficava a exatamente três quadras do meu apartamento. Ali permaneci por, aproximadamente, dez minutos, na esperança de que ela mudasse de idéia, mas não mudou. Comprei meus cigarros e caminhei rápido até minha casa para que a chuva não terminasse de lavar a minha boca. Sei que ela me amava.
Ao terminar a história, ouviu um soluço ao lado e perguntou:
- O que houve, meu jovem?
- Semana passada, minha noiva foi embora com outro homem. Como não pude perceber que eu já não era aquele a quem ela amava? Como você sabe que essa moça te amava?
- Bem, meu jovem, o dia que você descobrir o significado do amor, você mesmo encontrará a resposta. Naquela noite, eu não sabia que ela me amava, nem ao menos sabia o que era o amor. Acho que homens têm mais dificuldade que as mulheres quando se trata de amor. Só descobri essas coisas do coração depois de anos sentado nessa praça, ouvindo e observando. Se eu soubesse disso há 35 anos atrás, talvez, hoje, não estivesse aqui contando essa história.
Há três quadras dali, uma velhinha alimentava os pombos e lembra-se daquela noite chuvosa, em que correu até sua casa e ficou em frente ao portão, esperando que um rapaz de barba ruiva viesse a seu encontro, pela segunda vez na noite. Ela sabia que ele a amava.